Estudo de modelo · Agência Veritas

Duas teses, um bilhão, e um recuo

A Invista, de Santos, e a Felicità, de Balneário Camboriú, perseguem a mesma meta de R$ 1 bilhão de VGV por ano fazendo tudo ao contrário uma da outra. A mais rápida cresceu sete vezes em três anos. E foi a que precisou encolher quando o mercado virou.

📅 14 de outubro de 2026 🎙️ Dois podcasts transcritos por inteiro 📊 Biblioteca do Meta por identificador de página 📰 Imobi Report e imprensa setorial

01A correção que o episódio inteiro trouxe

Olhando só os números públicos, parecia que a Felicità chegaria ao bilhão em 2026, três anos antes da Invista. Está errado. Ela adiou o bilhão.

O sócio conta isso no próprio episódio, com todas as letras. A meta era R$ 1 bilhão líquido entre janeiro e dezembro de 2026, todos os indicadores apontavam que iam ultrapassar e havia chance de entregar já em 2025. Então o mercado retraiu e eles recuaram.

O que aconteceu no recuoNúmero
Corretores no pico90
Corretores hoje53
Redução do timecerca de 41%
Expansão em 2026nenhuma, o primeiro ano sem abrir nada desde a fundação
O que foi cortadoo Brand, ou seja, a mídia de marca e o conteúdo de longo prazo

Nas palavras dele, o bilhão não sai do coração, mas se não recuasse a máquina continuaria ligada, o custo de operação ficaria em cima, a venda não recuperaria e seria preciso um caixa de três anos para aguentar.

Isso melhora o estudo em vez de estragá-lo.

Agora as duas teses têm um teste real, não uma projeção. O mercado apertou as duas ao mesmo tempo e cada uma reagiu de um jeito: a Felicità encolheu 41% do time, a Invista não encolheu.

02O par, corrigido

O segundo podcast caiu justamente na imobiliária que já havia aparecido no estudo de Balneário Camboriú como a única que anuncia atendimento em até cinco minutos. Os dois levantamentos se fecharam num par.

Invista Inteligência Imobiliária
Santos · Abner Ricco · fundada em dez/2014
Produto
Só imóvel usado. Recusa construtora e lançamento.
VGV atual
R$ 650 a 700 mi/ano
Meta de R$ 1 bilhão
2029
Corretores
130
Anúncios ativos no Meta
18
Todos criados em maio de 2026. Nada em cinco meses.
Reação ao aperto
Segue igual, com caixa. Não encolheu.
Filosofia de caixa
Poupar e comprar quando está barato.
Contratação
Só quem nunca foi corretor. Em sete anos não contratou um experiente.
Marca construída com
Mídia física: elevador de prédio comercial, painel de avenida, bicicleta de orla, mesa de restaurante.
Felicità Imóveis
Balneário Camboriú · Brayann Germano · fundada em 2021
Produto
Lançamento e planta em parceria com construtora, mais usado e locação.
VGV atual
R$ 490 mi (2024)
Meta de R$ 1 bilhão
adiada
Corretores
53
Eram 90 no pico.
Anúncios ativos no Meta
268
446 no histórico. Os últimos criados hoje mesmo.
Reação ao aperto
Encolheu o time em 41% e cortou o Brand.
Filosofia de caixa
Reinvestir todo o lucro na empresa.
Contratação
Mudou três vezes. Hoje só experiente com venda comprovada.
Marca construída com
Tráfego pago contínuo, Google Ads na própria marca e conteúdo.

Arraste a tabela para o lado em telas pequenas.

InvistaFelicità
Tempo de vida12 anos5 anos
PraçaSantos, cidade de 420 mil habitantesBC, Praia Brava e Itajaí, três lojas
Google na própria marcanão aparecedois anúncios na mesma página
Instagram da empresa7 a 142 curtidas25,6 mil seguidores
Construtorarecusaparceria central, ligada à FG
Geografiahiperfoco, recusa negócio a 35 kmsegue a obra, três cidades

A leitura honesta do par

03A curva da Felicità, ano a ano

Números publicados pelo Imobi Report em abril de 2025, atribuídos ao sócio Brayann Germano.

2021 · ANO 1
R$ 65 mi
2022
R$ 220 mi
+238%
2024
R$ 490 mi
+120%
2025 · META
R$ 800 mi
+60%
2026 · ADIADA
R$ 1 bi
recuo

Para comparar: a Invista levou doze anos para chegar a R$ 650 milhões, e coloca o bilhão em 2029. A Felicità saiu de R$ 65 milhões para R$ 490 milhões em três anos, mas a meta de 2026 foi adiada.

04O método da Felicità, destrinchado

Esta é a parte que vale mais, porque é operação aberta na tela durante o episódio, não discurso.

🔥 O Funil Reverso, a peça mais copiável do estudo inteiro

Ferramenta construída dentro da empresa. O corretor define a meta de VGV que quer no ano, e o sistema devolve quantos leads, visitas e propostas ele precisa, usando o ticket médio real da empresa e as taxas de conversão reais por etapa. Com meta de R$ 20 milhões, a conta que ele abre na tela é esta:

EtapaTaxa de avanço realVolume no anoPor mês
Leads—1.250104
Lead para visita8%100 visitas8,3
Visita para proposta34%34 propostas—
Proposta para venda30%10 vendas—
O truque de comunicação que faz a meta funcionar: dividir por período menor.

"Atender mais de mil leads no ano" parece impossível. "Fazer cerca de 8 visitas por mês" parece fácil. É o mesmo número. O sistema também mostra quanto do funil o corretor já atingiu, proporcional ao mês, para ele saber se está acima ou abaixo da régua.

Conferência de número: no episódio ele diz "menos de 12 visitas por semana", e isso não fecha com a conta que ele mesmo mostra na tela, já que 100 visitas no ano dão 8,3 por mês. Como a transcrição saiu de áudio, é provável troca de palavra. O mecanismo vale, o número literal não: rode a conta, não repita a frase.

Isso virou ferramenta: a calculadora está em funil-reverso.pages.dev, com as três réguas, o cálculo da mídia necessária, o retorno sobre a mídia e um alerta quando a conta não fecha.

⏱️ O Bolsão: de onde vem o "atendimento em 5 minutos"

Não é promessa de marketing, é regra de sistema.

O lead cai para um corretor, que tem cinco minutos para falar com o cliente. Se não falar, a tecnologia tira o lead dele e notifica todos os outros corretores. Quem clicar primeiro, leva. Internamente chamam de bolsão. É uma regra que pune a demora com a perda do lead.

O resto da operação, em oito pontos

  1. Filas de distribuição por escolha do corretor

    Chamam de rolê. Há filas separadas para produto pronto, planta e os bairros novos de Itajaí, e o corretor escolhe em qual entrar. A transparência que vem junto: quem escolhe só pronto recebe menos leads, porque já estão no teto de prospecção do mercado no Google para esse produto. Dizem isso na cara do corretor para alinhar expectativa.

  2. Venda por videochamada, não por material

    A orientação é explícita: não mandar material. O corretor liga para chamar o cliente para uma videochamada, e quem só manda material é classificado internamente como de médio para ruim. Para isso existem cabines anti-ruído no escritório. Infraestrutura física montada em torno de uma decisão de processo comercial.

  3. O método de pré-lançamento, aprendido num fracasso

    No primeiro lançamento, em 2022, geraram 45 visitas presenciais em dois dias e venderam zero. O erro: não divulgaram o preço, para não colidir com a construtora, e sem preço não se qualifica a entrada do cliente. Contrataram um mentor de lançamento e no segundo explodiu. O método virou forma fixa: uma semana de preparação mais três semanas de ação, com passo a passo por semana.

  4. Duas táticas fora da caixa que ele conta

    Alugaram um salão de festas no prédio ao lado do plantão da construtora, pagaram café da manhã e almoço e deixaram o time inteiro imerso lá, para correr ao plantão mais rápido que o concorrente. A tabela subia 2,5% a cada dez unidades vendidas e eles já tinham as vinte primeiras. Em outra ação, empilharam caixas de papelão com um pano de seda por cima, gravaram dizendo que era a maquete do produto e viralizou.

  5. Dois tipos de produto, dois modos de operar

    Produto de pressão é o lançamento que o mercado todo ataca, movido por escalonamento, que exige mais gente para vender mais, com troféu e palco da incorporadora. Produto high ticket é um a um, por relacionamento, principalmente com proprietários. Foram a primeira imobiliária a vender o Senna Tower e o Brava Tempo.

  6. Gestão: dado, informação, plano de ação

    A frase que organiza é que dado por dado não muda nada. Têm um dashboard de mais de 30 páginas, e ele mesmo admite que com tanto indicador a pessoa se perde, então a liderança usa um número que aponta o problema e puxa a conversa dali. O diretor comercial revisa todas as propostas, todos os dias, sem pular. Quando um corretor está abaixo da média num avanço de etapa, chamam para um a um e mostram a média da empresa ao lado da dele.

  7. Contratação: mudaram três vezes e voltaram atrás

    Começaram contratando só experientes, abriram para gente sem experiência, deu certo em 2024, e em 2025 o mercado retraiu e o formato parou de funcionar. Descontinuaram parte do time sem experiência e hoje exigem venda comprovada, bom resultado e tempo de mercado. É o oposto do Abner Ricco, que em sete anos não contratou um único corretor experiente. A lição não é quem está certo: é que formar do zero funciona quando há demanda sobrando para o novato errar e aprender.

  8. Seleção por perfil comportamental calibrada com IA

    Usam DISC procurando perfil dominante e influente. E fizeram algo que vale copiar: pegaram o DISC dos melhores vendedores da história da empresa e processaram com IA para achar o ponto ótimo do perfil. Toda a liderança roda nas entrevistas.

Estrutura e cultura

O segredo que ele declara no fim.

A ordem é estrutura primeiro, depois mais gente, depois mais marketing, depois tecnologia para sustentar o marketing, e por fim funil e gestão para controlar tudo isso. E o contrapeso, que quase ninguém diz em público: se o mercado recua, corta gasto e encolhe, para resgatar a margem líquida e atravessar o ciclo. Ele chama de ponto ótimo, a quantidade certa de pessoas para o volume que o mercado aceita naquele momento.

05O que cada uma faz de mídia, medido

Levantado pelo identificador da página na Biblioteca de Anúncios do Meta, não por palavra-chave, para não haver erro.

Arraste a tabela para o lado em telas pequenas.

MétricaInvistaFelicità
Anúncios na biblioteca18446
Ativos hoje18, nenhum novo desde maio268
Último anúncio criado12 de maio de 202614 de outubro de 2026, hoje
Padrão de criativoTítulo genérico: "Apartamento a venda em Santos"Empreendimento nomeado: "Lançamento da Clarus no Fazenda", "Tour pela planta de 184 m²", "Home Club de 4.900 m²"
A diferença mais instrutiva está nos títulos.

A Felicità não anuncia "apartamento à venda". Anuncia o empreendimento, com nome, bairro e metragem, e usa formato de tour de planta. Isso é anúncio de lançamento feito por quem tem a tabela da construtora na mão. Imóvel usado não tem esse material, e é por isso que o criativo da Invista era genérico.

Dois usos que a Felicità faz e quase ninguém copia

A brecha dela, que vale registrar.

No Bairro Fazenda de Itajaí, onde concentra os 268 anúncios do Meta, a Felicità não aparece no Google. Quem paga lá é GPinheiro, Imobille, Lotisa e Vokkan. Ela constrói demanda no Meta e deixa a busca para o concorrente capturar.

06A leitura de mercado que complementa a do Abner

Do Portal Sala da Notícia, julho de 2025, com o sócio da Felicità.

FatoO que significa
98,5%das vendas da Felicità em 2024 foram à vista ou financiadas direto com a construtora. No alto padrão de BC o banco quase não entra, então a Selic tem pouco efeito ali.
120 mesesé o prazo do financiamento próprio que as construtoras locais oferecem, com reajuste abaixo da taxa básica.
15% a 25%de desconto que proprietário chega a dar para pagamento à vista em imóvel pronto. Pontual, não generalizado.
queda de 40%no ticket médio em um ano, e não por desvalorização: o comprador diversificou portfólio e migrou para unidades compactas. Para manter o VGV, a imobiliária aumentou o volume.
Onde as duas leituras se encontram.

O Abner diz que a Selic achata a classe média, que o altíssimo padrão não sente e que o segmento popular morre sem processo. O Brayann confirma pelo outro lado, mostrando que no alto padrão de BC o banco é irrelevante porque a construtora financia. As duas teses concordam que o aperto está no meio da pirâmide, e é justamente ali que ninguém anuncia.

07Quem é Brayann Germano

Sócio-fundador e gestor da Felicità.

08O que muda nos seus dois planos

Vendendo performance para imobiliárias agora

  1. Você tem duas provas opostas, e isso é mais forte que uma

    Para o dono que diz que tráfego não funciona em imóvel, a resposta é a Felicità: 268 anúncios ativos e o bilhão três anos antes de quem não anuncia. Para o dono que diz que só tráfego resolve, a resposta é a Invista: R$ 650 milhões por ano sem tráfego nenhum, porque marca e processo também funcionam.

  2. Anúncio de lançamento é mais fácil de vender que de usado

    O criativo da Felicità tem nome de empreendimento, bairro, metragem e tour de planta, porque ela tem material da construtora. Se o seu cliente trabalha com lançamento, o tráfego dele tem muito mais a dizer. Use isso para qualificar prospect na primeira conversa.

  3. Tráfego para recrutar corretor é serviço que ninguém vende e todo mundo precisa

    A Felicità roda anúncio de recrutamento. O Abner diz que o maior problema dos alunos dele é a camada de liderança. É uma campanha a mais na mesma conta, com resultado que o dono sente direto.

  4. Condição de pagamento é o ângulo de copy mais forte de BC

    Até 120 meses direto com a construtora, 15% a 25% de desconto à vista, ticket caindo 40% com volume subindo. É oferta concreta, não adjetivo. No levantamento de BC, só três anunciantes falavam de condição de pagamento.

Na sua imobiliária

  1. Decida de qual lado vai jogar antes de escolher a praça

    Usado exige marca local acumulada e paciência de anos. Lançamento exige relação com construtora e verba de mídia. São dois negócios diferentes com o mesmo CRECI. Se for lançamento, você já tem a competência que decide e o ciclo é mais rápido, mas depende de construtora que te dê produto e tabela. Se for usado, a vantagem composta é a reputação, e ela leva anos.

  2. Três lojas físicas em cinco anos

    A Felicità tem BC, Praia Brava e Itajaí. Isso contraria o hiperfoco geográfico do Abner, que recusa negócio a 35 km. Em mercado de lançamento, seguir a obra parece valer mais que defender a fronteira.

09A correção que isso faz no manual

O split de comissão da Invista não serve para imobiliária de lançamento.

Na Invista, 13% da comissão vai para quem captou o imóvel, porque imóvel usado é estoque escasso e captar é o ativo mais difícil. Em lançamento, o estoque é da construtora, então não existe captação para remunerar. Copiar o 13/30/7/3/47 sem adaptar é erro.

E a decisão que vem antes da praça deixou de ser "onde" e passou a ser "usado ou lançamento". O caminho híbrido que o estudo sugere é começar em lançamento, onde o seu diferencial atual pesa mais, e ir construindo carteira de usado como ativo de longo prazo.

O que ainda falta apurar